Tristeza.

Pingo a pingo, milímetro por milímetro, goteja o mar inteiro na minha sala; Aos poucos. Por anos. Por toda a eternidade. Como lágrimas. Salgadas escorrem pelo corpo e enferrujam minha fala. Inundam minha sala. Destroem a cidade. Destroem o mundo ao meu redor.

Grão a grão, grama por grama, cai o deserto inteiro na minha sala. Aos poucos. Por anos. Por toda a eternidade. Como meu corpo que se desmancha e escorre, se transforma em pó para o universo apenas o mesmo pó que é para o mundo. Sujam minha sala. Destroem a cidade. Destroem o mundo.

Aos poucos meu mundo vira lama, vira tristeza, vira horror. Vira um mundo. Vira minha própria imundice do tamanho de tudo. Vira minha própria ilusão, minha falta de razão transforma o mundo. Tudo. Transforma tudo.

Preso no meio da cidade, um cubo de vidro me cerca. Não me transformo em um mundo, em tudo, em algo. Em algo para o mundo, nem destruo o mundo como bem queria. Apenas me afogo. Afogo no meu próprio corpo, nas minhas próprias lágrimas, na minha própria lama. Agonizo. Afogo-me em lama. Destruo-me invisível. Invisível no meio da cidade.

Mateus M. Nascimento; isso é só um desabafo meio que às avessas.

55 minutos.

Gira o ventilador, gira meu pescoço, gira minha cabeça. Minha mente gira, gira tudo. Tudo ao meu redor. Nada para, nada seguro, nada consigo manter a minha frente enquanto penso, reflito. Surro minha mente e só gira mais e mais o mundo à medida que fico tonto.

Cai a noite, cai o Sol, cai a chuva, só não caem os ponteiros dos relógios de todas as pessoas do mundo. Nem a própria Terra cai em si. Tudo isso para que o dia pare, para que as pessoas pensem que o dia parou e literalmente pare, pare de passar o dia para que eu, enfim, dê à ele meu toque especial. Meu ardido tapa de amor.

Gira a cabeça, cai o meu sadismo, bate o tapa, tudo ocorre. O tempo passa, voa… 55 minutos apenas. Todo mundo já disse o que ela queria ouvir. Lágrimas já escorreram, todos os sorrisos do mundo eu tenho certeza que ela já sorriu. Ela está feliz, óbvio, é seu aniversário. Eu só queria dar parabéns. Mas é pouco.

Preciso pensar. Minha mente, girar. O mundo, acabar para começar a minha inspiração. Eu preciso dizer tudo o que penso, ou ao menos sintetizar. Resumir tudo o que disse? Não. Dizer algo diferente do que já disse em dois anos? Não dá.

Naquele tempo eu sabia exatamente o que eu queria dizer sobre tudo e dizia. Sabia dizer sobre amor, dor, sadismo… Hoje só sei enrolar, a ponto de deixar para os últimos 55 minutos toda a inspiração que me resta. Tempo chato. Tempo idiota. Mas eu também só um banana.

Talvez ela venha do convívio, ao menos virtual. Quando conversávamos fluidamente, os tapas de Caps Lock surgiam ao mesmo tempo em que os corações vermelhos da página de emoticons. Eu sabia descrever o quão doce você é e, apesar de ter sempre dito o contrário, o quão eu amava também seu lado amargo. Amargamente doce. Afável. Amável.

Eu, o estranho. Você, a normal. Eu sempre quis conversar de maneira estranha. Você vinha com sua normalidade. Eu falei que te amava na primeira janela do MSN só pra ver sua reação. Você deu seu toque de normalidade. Sempre demonstrava certo ceticismo quando me declarava amar. Era infundada sua dúvida.

Droga, agora só faltam 39 minutos. É pouco tempo. Não quero inventar. Eu desisto. Não vou conseguir dizer algo mais belo do que já disse um dia. Nunca direi nada mais belo do que tudo aquilo que você diz. Nada mais belo do que… Toda a forma como te vejo.

Mateus M. Nascimento; não era mais fácil dizer só “feliz aniversário”?

O assassinato é uma paixão como o jogo, o
vinho, os rapazes e as mulheres, e jamais
corrigida se a ela nos acostumarmos.
O crime é venerado e posto em uso por toda a
terra. De um polo à outro se imolam vidas
humanas.
Quase todos os selvagens da América matam os
velhos se os encontram doentes. É uma obra de
caridade por parte do filhos.
Em Madagascar, todas as crianças nascidas às terças,
quintas e sextas feiras são abandonadas
aos animais ferozes.
Constantino, imperador tão severo e querido dos
cristãos, assassinou o cunhado, os sobrinhos, a
mulher e o filho.
Nos mares do Sul, existe uma ilha em que as
mulheres são mortas como criaturas inúteis ao
mundo quando ultrapassam a idade de procriar.
Em Capo Di Monte, se uma mulher dá a luz a
duas crianças gêmeas o marido logo esmaga
uma delas.
Quando Gengis Khan se apoderou da China
mandou degolar à sua frente dois milhões de
crianças.
Os Quóias furam as costas das vítimas a
pancadas de azagaia, em seguida cortam o
corpo em quartos e obrigam a mulher do morto
a come-lo.
Os Hurões penduram um cadáver por cima do
paciente, de maneira a que possa receber na
cara toda a imundice que escorre do corpo
morto, atormentando assim o desgraçado até
que ele expire.
Os Irlandeses esmagavam as vítimas.
Os Noruegueses perfuravam-Ihes o crânio.
Os Gauleses partiam-lhes a bacia.
Os Celtas enfiavam-lhes um sabre no esterno.
Apuleio fala do tormento de uma mulher cujo
pormenor é bem agradável, coseram-na com a
cabeça de fora, dentro da barriga de um burro
ao qual tinham sido arrancadas as entranhas.
Deste modo foi exposta aos animais ferozes.

Dissertação Do Papa Sobre O Crime Seguida De Orgia - Titãs

Ocupe-se somente com sua própria felicidade.

A jovem de 15 anos que se suicidou não resistiu à própria pressão psicológica depois de inúmeras tempestades mentais na qual se sentia diferente e não conseguia satisfazer aos sonhos de seu pai, mãe e exigências sociais.

O viciado em drogas de 26 anos foi preso por assassinar três pessoas que presenciaram o roubo de suas casas, surpreendidas enquanto assistiam a um filme, à medida que ele necessitava do valor financeiro das mercadorias para obter satisfação ao vício.

O homossexual de 35 anos hoje vive afastado de sua família, que se deu devido ao fim do seu primeiro casamento, financiado por seus pais cristãos conservadores e com o aval de seu filho em nome da felicidade da família. Hoje não há mais família, a não ser a sua formada depois de novo casório com um homem.

O padre de 57 anos foi levado ao seminário para cumprir a promessa de seus pais cristãos e também para vê-los felizes, tudo em contraste às dezenas de pais tristes das crianças de 5 à 12 anos por ele abusadas.

Um homem de 37 anos hoje é executivo de uma grande empresa de tecnologia após sabotar, roubar, aliciar, criminalizar e contraverter ex-colegas de trabalho que hoje ganham um salário mínimo, estimulado pelo orgulho de seu pai morto que ali trabalhava em condições precárias e também pelos desafios sociais sofridos por ele, que o levaram a querer provar a própria capacidade.

O comum garoto de 5 anos chamado William não tem discernimento suficiente para sentir-se pressionado a satisfazer qualquer vício, gosto excessivo, sentimento de culpa, orgulho ou vingança, ou ainda para fazer alguém que não seja ele feliz.

William não se importa com nada além de sua própria felicidade. William é feliz.

Mateus M. Nascimento; às vezes é positivo ser egoísta enquanto busca por felicidade.

Apatia semiamorosa.

Impotente, imóvel, inconsciente. Como aquele que foi jogado no gelo da antártica e lá hoje vive congelado, trancafiado na cela de água.

Inconsciente, impotente, imóvel. Vivo como ele, só que no meu caso o amor é calor e todo ele se foi. Vivo também em eterno frio. Calor necessário para viver. Estou vivo?

Frio sonhando estar quente, vendo a luz do calor, o sonho da felicidade. Se ainda existo em terra ou no pós-vida, se eu estivesse exatamente no lugar no homem preso no gelo, eu estaria vendo lá no fundo do gelo um pixel, um pontinho laranja, que encheria meu coração de esperança. Esperança de ser uma chama, um sonho.

Como no gelo, da forma que estou o tempo também não passa. Sem o amor meu coração não amadurece e meu corpo não cresce. Só vejo de baixo e de longe o movimento da chama que tem a minha altura, cabelos lindos e andar divino que combina com o sorriso.

 Rumores que essa chama também pode me queimar. Vale mesmo a pena reviver para sofrer com a morte?

Mateus M. Nascimento.

Amante sádico-psicopata.

Vê-lo tocando o chão a minha frente com o toque sutil de seu andar e movimento leve de seu cabelo que encantam e brilham meus olhos, de tal forma que me dá vontade de…

Amar de maneira tão estranha imaginar me faz que esteja apaixonado não por ele, ela, por você, mas pelo próprio ódio de amar, amar de maneira tão estranha a raiva que de forma estupenda me faz tirar de dentro do meu próprio peito a vontade de adentrar estas mãos pelo teu peito e te causar a maior dor que já sentiu, além de quebrar cada osso, um a um e de matar como minhas próprias mãos, a vontade de…

Dar um tapa no seu rosto medíocre que me traz ódio, além de quebrar seu crânio com a mesma intensidade que o amo e lhe fazer carícias a medida que cresce meu ódio em não poder te olhar todos os dias, em viver desse mistério escondido em mim mesmo e nesse texto que não faz sentido. Tudo se resume em uma vontade de…

Beijá-lo(a) na testa, no rosto, no nariz, no pescoço, na boca, no corpo, todo, enquanto…

Sinto o som da minha própria raiva ecoar no peito, em cortá-lo ao meio ou envenená-lo e vê-lo morrendo aos poucos enquanto cai nos meus braços. Morto de amor enquanto se entrega ao cheiro das flores, minhas flores que te entrego e acaricio na cadeira do barbeiro. Acaricio com a lâmina da navalha, o trisco entre a morte e o amor, o amor e a morte só porque…  

Mateus M. Nascimento.

O olhar dentro do meu olhar.

Eu olho para o céu e me sinto perseguido pela nuvem do teu carinho. Olho pra você e vejo em cada olhar uma nova estrela que surge. Olho para teu olhar no céu e vejo sempre uma nuvem a frente, que me impede de ver, ver diretamente, claramente, de forma que sacie a minha cobiça. Você está sempre além das lentes do telescópio.

Outras lentes, as dos meus óculos, outrora se fazem mais potentes que as tradicionais do telescópio enquanto me permitem observar adentro ao céu dos seus olhos e ver ali a felicidade plena de amar, de amar como vive comigo, de amar como vive… Simplesmente por ser comigo.

Porém, estas também se embaçam com as lágrimas providas sempre pela esfera sóbria do meu Eu que preferem impedir a pior desilusão à medida que tenta me impedir da melhor forma enxergar. Enxergar além do céu pelo Sol iluminado, controlado, sóbrio, do qual já estou cansado.

Meus olhos secos e podres, ora molhados por este sal de lágrimas sóbrias, fita o céu dos seus olhos e conta as nuvens, que ora aparecem isoladas no céu apenas para atrapalhar a minha visão na sua visão… Ora aparecem nuvens de amor no horizonte, que depois cobrem o céu apenas para me lembrar que esse meu sentimento só consegue trazer mais uma frustração, não alegria, felicidade, nem chuvisco de amor.

Eu me olho no espelho e adentro o céu dos meus olhos e me vejo olhando o céu dos teus olhos enquanto me rodeio dele. O céu ao redor do meu Eu que o estava olhando. No seu céu, o meu próprio céu como em um espelho… Seco, sofrido, amargo. O mesmo céu que prenuncia a fome e a morte além do horizonte parece anunciar a frieza e a solidão antes do limiar.

E atrás deste olhar que olha o espelho e vê o próprio olhar moldado por si mesmo, onde encontra a forma como imagina o céu dos próprios olhos enquanto vê o céu de olhos inexistentes, nada mais existe, se não aquele olhar através das nuvens, que eu mesmo olho dentro da minha mente doida e se faz sonho enquanto vive enquanto no céu, no meio das nuvens.

Um olhar para onde todos os meus Eus olham e sonham. Um olhar que não existe e que todo o meu eu procura. Mas como não existe? Existe nas minhas nuvens, no meu sonho. No fundo do meu olhar não há apenas tristeza. A tristeza evapora e forma nuvens, sonhos de amor.

Mateus M. Nascimento.

Porque o sol só nasce lá fora.

Você era só uma garotinha que pensava, refletia, amava, imaginava. Quanta imaginação. Sua casa, ou castelo, sua coberta, ou escudo, sempre foram em sua mente a maior e melhor das proteções.

O castelo te protegia da noite, escura noite que só acontece lá fora. Pois dentro existem seus pais que criam uma luz do sol só para ti, para clarear seus medos e desgostos e te trazer sabores que superam seus dissabores infantis.

O escudo te protegia de todo o resto. Mais hora menos hora seus pais também dormem, e quem espanta os monstros do quarto? Mas não há nada a temer quando se pode simplesmente se cobrir e ter o calor, o afeto, a proteção que nenhum monstro nunca conseguiu te tirar.

Mas e agora? Você já não é mais a mesma, a mesma garotinha ainda existe em você, mas você não é mais inteiramente ela. Cresceu, cresceu uma extensão de você e junto dela a ilusão de viver. Você não admite, mas ainda vive no castelo e dorme sob um escudo.

Você ainda vive da proteção e dizeres de seus pais e é refém das próprias ilusões, dos monstros que você nunca viu e que apenas te contaram. Que você apenas ficou sabendo.

O inverno antigo passou, um novo chegou e trouxe mais frio. Você precisa de mais calor porque o tempo passou, o inverno chegou, você mudou, cresceu e já não é mais a mesma. Precisa de mais calor porque descobriu que viverá melhor se o conseguir, passou a sentir falta, e não terá mais a mesma felicidade enquanto não o conseguir.

Não há outra forma. Você terá que abandonar tudo, doa a quem doer. Você não precisa pensar, pois é óbvio. Você quer e tem que ir. Se existem monstros no caminho, você já é grande o suficiente para enfrentá-los. Se seus pais são eles, descubra por si mesma porque eles estão certos. Mas levante-se!

Acorde! O cobertor te aquece, mas o sol só nasce lá fora.

Mateus M. Nascimento.

Meu louco, inseguro, escuro olhar.

Minhas duas faces por trás das duas lentes dos meus óculos carregam consigo um tom ordinário, o branco, que o dizem que ser puro, quando não o são. Carregam consigo, além disso, um mar de lixo, de tudo o que é sujo, imundice, com uma ilha negra, uma ilha de tristeza.

Seus arredores marcados pelo roxo da noite passada mal dormida. Troquei o sono pela música, pela conversa, pelo pensamento, pela reflexão sobre o jeito como vivo. Mas o problema não é o café, nem a música, nem o pensamento, mas somente a vida. Vida essa que não precisou de sono algum para pintar de roxo meus olhos. Pinta com seus punhos de bronze que me acertam a cada passo que acredito dar a frente, talvez para me alertar que vivo enganado, por não saber o que é a frente enquanto olho para trás.

Estes olhos sujos, comuns, imundos já arderam de raiva, de ódio. Porém não antes de arder de amor, esperança, antes do rancor e da imundice da vingança. Procuraram antes de tudo lá no horizonte um destino, lá do outro lado do precipício. Levaram-me até lá e caíram comigo no abismo. Pintaram, mesmo que você não veja, meu corpo inteiro de roxo. Fui levado por meus olhos, pela minha mente e pelo horizonte.

Lá no fundo meus olhos não enxergaram muita coisa. A esperança que iluminava o arredor não caiu comigo. Olhos que não enxergam não dão vitalidade, temperança. Não mais vivi o calor nem o vi. Meus olhos apenas viram e ainda veem em mim o frio.

Mas a culpa não é do horizonte nem do precipício, é minha. Esse horizonte não existe, esse precipício não existe. Meu olhar se virou para trás e olhou para dentro, para dentro de mim, da minha cabeça, da minha falta de lucidez, da minha loucura! Meus olhos se tornaram minha fraqueza, e dela derivou minha insegurança.

Não sou um corpo, não sou nada. Não sou saudável, interessante, sociável, intrigante, aceitável, normal, mas apenas arrogante. Meus olhos, quando realmente viam, enxergavam um cenário promissor, uma vida. Mas minha mente duvidou, pois em mim mesmo não acredita. Dos meus olhos duvida. Estes, sem saber para onde olhar, se viraram para dentro e viram o que eles mesmo colocaram em minha mente, um horizonte a caminhar, e viram, ao mesmo tempo, a simulação mental criada por meu cérebro para chegar àquela conclusão.

Se o incapaz não enxerga ou não vê, não precisa tentar. Tropeçou, desacreditou. Fechou-se para a luz, para a esperança, para o calor. Congelou. Essa era a conclusão e essa mesma mente doente, louca, fria e incapaz achou que este era o melhor que ela poderia conseguir, mesmo seus objetivos sendo outros. O fez na vida real e se satisfez. Mas no fundo, naquele fundo do precipício que apenas os olhos em crise olharam, tudo deu errado, e nada está em festa.

Se estes olhos, hoje congelados, pudessem olhar para dentro de si de novo, lá veriam uma pequena televisão, ligada sob uma comédia romântica em um dia lindo ao redor dos restos de um grande desastre.

Ela é fruto da remanescente capacidade de ver destes olhos, que se paralisam diante da felicidade de um casal e se enaltecem com tamanha alegria e amor, tomando um pouco dela para si. Um olhar morno de frustração e uma leve fagulha de esperança, que queima pouco de sonho, que não conserta o meu grande desastre racional.

Mateus M. Nascimento.

Ao Sr. Manifestante.

Ó ilustre senhor, gritante, do interior dessas terras, Manifestante. Lutador. Sente-se agora, aqui aquiete seu ânus neste estofado e levante seu dedo mindinho para esta xícara de café, o esteroide para a filosofia. Vamos refletir.

A boiada passou. Choveu, mas não alagou. A ponte quase caiu, quase. A banda está passando e só você vê e é contra. O leite derramou, o café coou, a criança acordou, mas já parou de chorar, apesar de ter começado de novo. Pare de misturar e use a razão. Enquanto gritos seus ouvirem, continuarão a chorar. Não pela ausência da mãe, mas pelos seus gritos, ó vizinho. Essas crianças têm uma vida e não conseguem admitir a troca do direito de ir trabalhar ao direito de manifestar enquanto fechas a marginal. Já foi, passou, cansou. Já pagamos o leite, pagamos o café e a criança logo irá voltar a dormir, só você que não quer deixar.

Não é mais questão de “vai ter” ou “não vai ter”. É questão de “está tendo” e “quase já teve”. Você é tão irritante que já está quase sozinho nessa. Seus xarás já mudaram de nome para “Torcedor” e, em vez de gritar “Não vai ter copa!”, gritam “Vai Brasil!”.

Você luta pela democracia, mas vai acabar virando ditador se conseguir o que quer, pois está praticamente sozinho nessa. Você esbofeteia a cara do povo quando o vandaliza. É motivo de risos dos governantes quando tempera sua comida com a pimenta de seus olhos. Quem trabalha quer chegar até o trabalho, e você não ajuda muito fechando a rua e quebrando ônibus.

Certo está em um ponto. Não há nada bem e assim por ficar não pode. Não entenda que eu quero julgar sua capacidade de ser ou não hipócrita. Entenda que eu só quero te fazer pensar.

Pensar que, se você quer mudar uma nação onde a base do poder é o povo e quem controla o povo é a mídia, não é sábio sambar na cara do povo, nem viver a dar pretexto para chacota da mídia.

Caso queira mudar algo, não são essas as pessoas, se é que restam pessoas. Não é esse o jeito. Porém, lembre-se: é essa a hora. É esse o lugar.

Mateus M. Nascimento.

 

A república dos unicórnios. República dos hipócritas.

Prazer, meu nome é Córnio, sem trocadilhos, por favor. Sou totalmente contra essa educação que nos ensinam desde criança. Sou contra a quebra de tradições. Sou contra a censura. Façam piadas e trocadilhos com tudo!

Pois bem, meu sonho é ter apenas família, amigos, um cachorro, bom, isso além de transar (transar, transar, transar…). Esse negócio de família é muito careta. O negócio é sexo, drogas e rock’n Roll! Porém nada como ouvir uma bossa nova, um João Gilberto, para acalmar os ânimos. Tudo isso só para dizer que sou muito idealista. Além de popular. Sigo o que todo mundo diz que gosta.

Sou contra a desigualdade social e o capitalismo. I S2 New York! I Love Coca-Cola! I love McDonnald’s! Aliás, eu sou vegano.  Defendo o direito dos animais. Porém as baratas têm que morrer! Aliás, que animalzinho feio, esse ai eu não reblogo.

Sou a favor dos gays, dos travestis… Mas que marmota é essa? Jesus amado. O evangelho seja pregado em todo o mundo com martelo de ferro! E viva a liberdade! Liberdade minha em ser mimado.

Esses meus ideais eu defendo até a morte e respeito quem pensa diferente, ou igual. Só não tolero muito. Super defendo a democracia e os fracos e oprimidos. Por sinal, me sigam, preciso ganhar a eleição da popularidade. Além disso, preciso esfregar na cara de todo mundo que tenho muitos, mas muitos seguidores. E todos merecem vez. Mas eu avalio tumblrs e, lamento, seu teme é feio e essa sua foto ai minha filha, não dá.

E após idas e vindas, idas e voltas… Continuam os mesmos no poder. No poder da popularidade. Na maça da pornografia. Eu penso assim. Se você não pensa assim, saia daqui. Pois essa daqui é a República dos Unicórnios, ou se preferir, República dos Hipócritas.

Mateus M. Nascimento – com sono e sem inspiração.

Um certo homem.

A vida pós-matrimônio tornou-se um tanto quanto monótona, talvez porque eu tenha me casado mais por vontade alheia que por vontade própria, mas agora é tarde demais para reclamar. Todos os dias pontualmente às 6h45 eu saiu de casa com meus dois filhos para levá-los à escola, para chegar ao horário das 7 da manhã. Os levo porque a escola é no caminho para o trabalho e também porque evita muitas reclamações da “esposa”.

O horário do qual tenho que picar o ponto no trabalho são às 8 da manhã, uma hora depois da entrada das crianças na escola, que fica a apenas 4 minutos do meu local de trabalho, tempo demais para ficar sem fazer nada, logo aproveito para parar em uma padaria qualquer e tomar o café matinal. Também é tempo demais para voltar para casa, pois eu não resistiria a esse tempo todo junto da “esposa” logo de manhã, quando a memória que ela tem da noite passada é bastante fresca, pois, digamos que eu não tenha tantas noções de atração sexual por ela, e ela não tenha tantas noções de calma, tolerância, talento na cozinha…

E justo por não ter esse talento (e todo o resto) é que sou obrigado amargamente a passar o sofrimento de comer em uma padaria, mais precisamente na padaria do Sr. Norberto, esquina da Avenida Rohm com a Rua Brandemburgo, a 4 minutos da escola, a 1 minuto do trabalho, bem em frente a uma academia. Vista panorâmica de homens que dedicam sua vida a malhar entrando e saindo o tempo todo. Acredite, comer na mesa mais próxima à porta é um sofrimento pra lá de delicioso, e não falo das(os) delícias que vejo necessariamente na padaria.

Esses são os melhores 56 minutos do dia e este é o cliente que mais tempo se mantém sentado na padaria do Sr. Norberto. Disparando um certo olhar de alguém que semicerra os punhos, um pouco fecha os olhos, morde os lábios. Olhando os… Pássaros migrando para o sul é claro. Um a um, alguns um pouco suados, dando um pouco de definição às formas. Alguns mais ousados preferem ir para onde quer que vá depois da academia sem camisa mesmo, mostrando os horrorosos traços lineares do abdômen um tanto quanto definido, os bíceps saltitantes à visão como Lady Gaga de branco com um sapato vermelho na neve e todos os músculos que às vezes tento contar só por curiosidade, porém parece que eu me desconcentro e perco a conta. Mas que fique claro que esses são detalhes que noto por acaso, pois jamais eu, homem casado, observaria um homem forte, gostoso, sarado, seminu…

Jamais observaria até mesmo aquele certo homem que olha fixamente para cá, sempre que de lá sai, todos os dias, quando já estou 5 minutos atrasado. Um certo olhar, para esta certa mesa daquele certo homem, fez estremecer um certo olhar, nesta certa mesa, para aquele certo homem. O descobri por acaso, quando realmente me atrasei. Mas é estranho que depois disso eu sempre me atraso 5 minutos, todos os dias. E até agora ele sempre olha para cá, hora com um sorrisinho calmo, hora com certa carinha de que quer algo…

Será que ele quer… Doces ou salgados ou pães…? Afinal, estou em uma padaria. Bem, se há uma dúvida, nada melhor que ir perguntar:

- Por favor, para que lado é que fica a estação de metrô mais próxima? – a cara de surpresa dele serviu para nós dois – É que eu me mudei pra cá recentemente e preciso de… Oh, perdão, meu nome é Richard. O seu é…? – eu mais queria chamar aquele moreno, alto, olhos azuis, barba por fazer, camiseta bastante colada no formato daqueles músculos não de fisiculturista, mas de alguém que simplesmente vai à academia para se manter em forma, de gostoso.

- Jefferson, muitas vezes chamado de Jeff, se assim quiser, dessa forma pode me chamar.

- Pois bem Jeff, eu vim de Campinas e no momento trabalho como… É… Fiscal do corpo de bombeiros – que nesse caso quer dizer contador, afinal foi apenas uma mentirinha de leve – e a uma meia hora daqui há uma boate com vistoria marcada e eu sei que poderia fazer esse trajeto de metrô.

- Há, claro, eu frequento sempre aquela boate por esse mesmo caminho e poderia te dar detalhes que vão de como chegar lá até como andar lá dentro. Poderíamos conversar melhor ali naquela mesa de padaria.

- Sim, claro, claro… É que… Não, mas – de vez em quando eu tenho essas crises de gagueira, foi assim na frente do padre durante meu casamento – Podemos sim – Nós dois nos dirigimos de volta à padaria, mas que local adorável era aquele agora. Sentamos-nos e recomecei.

- Pois bem, já que você sempre a frequenta, talvez me pudesse dizer como funcionam as coisas lá dentro, etc.

- Ahhh, sim, claro. Eu ia toda semana com meu namorado – “namorado”, “namorado”, “namorado”… Essa palavra soava como um AVC na minha cabeça – Porém nos separamos ontem e…

- Oh, lamento muito. Mas o que houve?

- Ele nunca foi tão gentil comigo, perdia a calma com muita facilidade – Eu sabia bem como era aquilo, se sabia.

- Entendo, entendo. Mas… Ow, droga, perdi o horário da vistoria – mentira, tanto quanto era a vistoria e a profissão de fiscal – Droga. Mas eu tive uma ideia.

Um conjunto de estratégias se formou em minha cabeça. Na minha cama nada acontece até às 11 da noite, quando todos dormem. Nas crianças quem manda sou eu, logo sumir com elas não é um problema. A anta da minha esposa dorme como uma pedra gorda, gorda como ela é. São horas e horas de uma sexta à noite livres para mim e meu breve amigo hétero do qual não estou interessado em nada além de amizade. Mas, voltando ao diálogo…

- … Porém eu posso remarcá-la para segunda-feira. E, talvez eu não te encontre até lá. Você poderia ir comigo na boate hoje, sem nada formal ou informal, apenas informacional, para conhecer o lugar – o sorriso imediato no rosto dele me fez fechar a mente.

- Ow, claro, vamos. Eu estava sozinho hoje mesmo. Posso ir com você… – nesse momento parei de ouvir.

O mundo caiu sob a minha cabeça. Esse não era o primeiro e não seria o último rapaz. Eu preciso me parar ou então… Dois pais religiosos gritantes no meu ouvido falando sobre o assunto “Deus e a homossexualidade”. Duas crianças sofrendo bullying na escola. Um carro e uma casa sendo vendidos e tudo o mais por causa de uma furiosa esposa que foi traída com… Homens! Adeus família… Pai, mãe… Vida social… Mas ele é completamente indefinível. Um homem indefinido por alma. Não por corpo, que é completamente definido, delicadamente esculpido, delicioso…

- Não (esse não foi para mim mesmo)… digo, sim, quer dizer, sim, vamos. Hoje, 11 e meia da noite.

Esse “não” disse sim para tudo. Para o cara, para o meu desejo sexual sobre o cara, para a minha ruína que viria horas depois com uma esposa que notou que seu marido na cama não estava e o procurou na boate mais próxima de casa… Mas disse sim pra mim mesmo, e também para a noite incrível que foi para o meu corpo, enquanto ele durou. Minha agora “ex-mulher” parece conhecer bem essa moda de bater em homossexuais com lâmpadas fluorescentes.

Tudo me custou um preço muito caro, equivalente a metade do carro, da casa, de toda a herança dos meus pais que me deserdaram no dia seguinte… Mas me mantive no trabalho e em um apartamento que aluguei ali perto. Perfeito para tomar café da manhã em uma certa padaria, que passaria a ser visitada por um certo casal, até que este casal começou a se beijar à mesa, o que provocou a ira do Sr. Norberto que nos expulsou do local. Que pena, fomos obrigados a migrar para o meu apartamento.

Perdi família, casa, carro, amigos. Mas ganhei algo muito melhor: uma carinha de prazer, para não falar tesão, que Jefferson faz todas as noites em um certo apartamento, que eu agora chamo de casa.

Mateus M. Nascimento.

Mudança de ritmo.

O vento corre, a enxurrada corre, o ladrão corre do carro com o carro, por ventura roubado. Corre-corre que faz parte da corrida diária do delegado, que vive em uma maratona junto do resto da cidade. Cidade formada por pessoas que correm, correm, correm, que só não compram o tempo porque precisam dele para arranjar dinheiro.

Eu não sou da fazenda, mas sim da cidade. Logo, como todo mundo da cidade, corro como quem corre da morte ou de alguém que a morte pegou e colocou para correr atrás de você. O dinheiro sempre fica longe, muitos segundos à frente, só que se eu parar sou pisoteado pelos que vêm atrás. Logo, só me resta correr, correr, correr… E, como fazer o que não se gosta é gerar um desprazer é eterno, me forcei a gostar. A gostar de correr, correr e nada mais.

Fixo sempre na corrida, dando qualquer energia que surge, até não sobrar nenhuma. Todo fim de ano ela acaba um pouco, depois de tanto perseguir e gastar, o combustível acaba. Cansei de correr e comecei a andar.

Como todo mundo no fim de ano, comecei a ver o dinheiro de longe… Cada vez mais distante. Já não valia mais a pena só ficar olhando para ele, perdeu o sentido. Para matar o tédio, tive que olhar para trás. Logo vi que os outros também andavam e olhavam para trás.

O que viam, eu não sei, já que só sei o que vi. Vi a verdadeira face das pessoas, vi como elas são por completo e, melhor, vi que elas existem. Além disso, vi, mais atrás, toda a distância, tudo aquilo que deixei só para correr. Fiquei um pouco mais sábio (pensativo, adquiri alguma sabedoria pela reflexão, o que é pouco, um pouco mais sábio). Parei de correr.

Agora, para dedicar todo o meu esforço a me lembrar de tudo de bom que deixei para correr em uma corrida que fui forçado a querer ganhar, me deito. Para lembrar-me do local anterior a este, no qual tive que me adaptar. A força externa que me fez focar em apenas um algo físico, não em algo que sempre me fez feliz. Refleti no que foi e que não foi bom, mas mesmo assim me fez sorrir. Saudades é um sintoma comum nesses casos.

Isso não por muito tempo. O som me fez olhar para trás de novo e ver que o mesmo, provocado pelo bater dos pés para ganhar impulso, significa que logo o ritmo vai aumentar. É correr ou morrer pisoteado.

Sendo assim, só me resta uma coisa: correr.

Mateus M. Nascimento.

Psicótico.

Eu já não consigo mais dormir. Não pela insônia em si, não pela cafeína que me tira o sono. Sim pelo objeto que escondem atrás do travesseiro. Esse algo estranho, estranhamente me faz pensar. Pensar sempre. Sempre que me coloco sobre o travesseiro.

E assim, de repetente, me surge, se expande, sem pedir licença, tudo aquilo que escondi, em avalanche de mim mesmo. Que coloquei no armário sem a menor organização. Tudo cai para cima de mim como quem se vinga.

Desde então não há quem durma, ou se concentre, ou mantenha a calma, a felicidade, a tristeza, a razão! Pelos gritos que se ouve, pelos lamentos, pela dor. A dor que parece tanta daquele homem estranho que grita, ensurdece, enlouquece, a mim, a si mesmo, a todos. Gritando além de dores, clamores, suas tristezas, seus amores, traições, sim, dores e mais dores. Aaaaaaahhhh! Não se vive assim.

Chamam-na de “doença ruim”, mas se não fosse minha psicose, jamais eu teria um revólver ao meu lado. Um tiro, antes de qualquer “ai”, dois tiros. Um sopro, dois sopros, um suspiro. Outro tiro para garantir. Um homem morto, um fim.

No fim parece bom. Para mim, para todos. Uma paz boa enquanto dura. Previsível, racional. Sinto-me senhor de mim mesmo. Até que o fim não parece mais fim. Quando o pensamento deixa de ser racional. Um verdadeiro buraco negro em uma mente humana que não se livrou completamente de sua natureza irascível.

E nesse momento, tudo parece começar de novo. A pessoa surge cada vez pior, ou melhor. Pois, quanto maior a dificuldade, maior o mérito. A frieza ordena, a razão obedece. A proteção vem como consequência.

O homem me é irrelevante, ainda que me tenha feito mudar em tudo. Frio, racional, psicótico, bélico e mortal somente para ele. Para a bel proteção de mim mesmo, contra tudo aquilo que ele clama. Para manter-me vivo, mesmo sem saber mais o real sentido de tal palavra.  O fim pelo fim…

Mateus M. Nascimento.