O Sádico... »
No meio da dor, comecei a me divertir com ela... Nunca deixando de sentí-la...

Um certo homem.

A vida pós-matrimônio tornou-se um tanto quanto monótona, talvez porque eu tenha me casado mais por vontade alheia que por vontade própria, mas agora é tarde demais para reclamar. Todos os dias pontualmente às 6h45 eu saiu de casa com meus dois filhos para levá-los à escola, para chegar ao horário das 7 da manhã. Os levo porque a escola é no caminho para o trabalho e também porque evita muitas reclamações da “esposa”.

O horário do qual tenho que picar o ponto no trabalho são às 8 da manhã, uma hora depois da entrada das crianças na escola, que fica a apenas 4 minutos do meu local de trabalho, tempo demais para ficar sem fazer nada, logo aproveito para parar em uma padaria qualquer e tomar o café matinal. Também é tempo demais para voltar para casa, pois eu não resistiria a esse tempo todo junto da “esposa” logo de manhã, quando a memória que ela tem da noite passada é bastante fresca, pois, digamos que eu não tenha tantas noções de atração sexual por ela, e ela não tenha tantas noções de calma, tolerância, talento na cozinha…

E justo por não ter esse talento (e todo o resto) é que sou obrigado amargamente a passar o sofrimento de comer em uma padaria, mais precisamente na padaria do Sr. Norberto, esquina da Avenida Rohm com a Rua Brandemburgo, a 4 minutos da escola, a 1 minuto do trabalho, bem em frente a uma academia. Vista panorâmica de homens que dedicam sua vida a malhar entrando e saindo o tempo todo. Acredite, comer na mesa mais próxima à porta é um sofrimento pra lá de delicioso, e não falo das(os) delícias que vejo necessariamente na padaria.

Esses são os melhores 56 minutos do dia e este é o cliente que mais tempo se mantém sentado na padaria do Sr. Norberto. Disparando um certo olhar de alguém que semicerra os punhos, um pouco fecha os olhos, morde os lábios. Olhando os… Pássaros migrando para o sul é claro. Um a um, alguns um pouco suados, dando um pouco de definição às formas. Alguns mais ousados preferem ir para onde quer que vá depois da academia sem camisa mesmo, mostrando os horrorosos traços lineares do abdômen um tanto quanto definido, os bíceps saltitantes à visão como Lady Gaga de branco com um sapato vermelho na neve e todos os músculos que às vezes tento contar só por curiosidade, porém parece que eu me desconcentro e perco a conta. Mas que fique claro que esses são detalhes que noto por acaso, pois jamais eu, homem casado, observaria um homem forte, gostoso, sarado, seminu…

Jamais observaria até mesmo aquele certo homem que olha fixamente para cá, sempre que de lá sai, todos os dias, quando já estou 5 minutos atrasado. Um certo olhar, para esta certa mesa daquele certo homem, fez estremecer um certo olhar, nesta certa mesa, para aquele certo homem. O descobri por acaso, quando realmente me atrasei. Mas é estranho que depois disso eu sempre me atraso 5 minutos, todos os dias. E até agora ele sempre olha para cá, hora com um sorrisinho calmo, hora com certa carinha de que quer algo…

Será que ele quer… Doces ou salgados ou pães…? Afinal, estou em uma padaria. Bem, se há uma dúvida, nada melhor que ir perguntar:

- Por favor, para que lado é que fica a estação de metrô mais próxima? – a cara de surpresa dele serviu para nós dois – É que eu me mudei pra cá recentemente e preciso de… Oh, perdão, meu nome é Richard. O seu é…? – eu mais queria chamar aquele moreno, alto, olhos azuis, barba por fazer, camiseta bastante colada no formato daqueles músculos não de fisiculturista, mas de alguém que simplesmente vai à academia para se manter em forma, de gostoso.

- Jefferson, muitas vezes chamado de Jeff, se assim quiser, dessa forma pode me chamar.

- Pois bem Jeff, eu vim de Campinas e no momento trabalho como… É… Fiscal do corpo de bombeiros – que nesse caso quer dizer contador, afinal foi apenas uma mentirinha de leve – e a uma meia hora daqui há uma boate com vistoria marcada e eu sei que poderia fazer esse trajeto de metrô.

- Há, claro, eu frequento sempre aquela boate por esse mesmo caminho e poderia te dar detalhes que vão de como chegar lá até como andar lá dentro. Poderíamos conversar melhor ali naquela mesa de padaria.

- Sim, claro, claro… É que… Não, mas – de vez em quando eu tenho essas crises de gagueira, foi assim na frente do padre durante meu casamento – Podemos sim – Nós dois nos dirigimos de volta à padaria, mas que local adorável era aquele agora. Sentamos-nos e recomecei.

- Pois bem, já que você sempre a frequenta, talvez me pudesse dizer como funcionam as coisas lá dentro, etc.

- Ahhh, sim, claro. Eu ia toda semana com meu namorado – “namorado”, “namorado”, “namorado”… Essa palavra soava como um AVC na minha cabeça – Porém nos separamos ontem e…

- Oh, lamento muito. Mas o que houve?

- Ele nunca foi tão gentil comigo, perdia a calma com muita facilidade – Eu sabia bem como era aquilo, se sabia.

- Entendo, entendo. Mas… Ow, droga, perdi o horário da vistoria – mentira, tanto quanto era a vistoria e a profissão de fiscal – Droga. Mas eu tive uma ideia.

Um conjunto de estratégias se formou em minha cabeça. Na minha cama nada acontece até às 11 da noite, quando todos dormem. Nas crianças quem manda sou eu, logo sumir com elas não é um problema. A anta da minha esposa dorme como uma pedra gorda, gorda como ela é. São horas e horas de uma sexta à noite livres para mim e meu breve amigo hétero do qual não estou interessado em nada além de amizade. Mas, voltando ao diálogo…

- … Porém eu posso remarcá-la para segunda-feira. E, talvez eu não te encontre até lá. Você poderia ir comigo na boate hoje, sem nada formal ou informal, apenas informacional, para conhecer o lugar – o sorriso imediato no rosto dele me fez fechar a mente.

- Ow, claro, vamos. Eu estava sozinho hoje mesmo. Posso ir com você… – nesse momento parei de ouvir.

O mundo caiu sob a minha cabeça. Esse não era o primeiro e não seria o último rapaz. Eu preciso me parar ou então… Dois pais religiosos gritantes no meu ouvido falando sobre o assunto “Deus e a homossexualidade”. Duas crianças sofrendo bullying na escola. Um carro e uma casa sendo vendidos e tudo o mais por causa de uma furiosa esposa que foi traída com… Homens! Adeus família… Pai, mãe… Vida social… Mas ele é completamente indefinível. Um homem indefinido por alma. Não por corpo, que é completamente definido, delicadamente esculpido, delicioso…

- Não (esse não foi para mim mesmo)… digo, sim, quer dizer, sim, vamos. Hoje, 11 e meia da noite.

Esse “não” disse sim para tudo. Para o cara, para o meu desejo sexual sobre o cara, para a minha ruína que viria horas depois com uma esposa que notou que seu marido na cama não estava e o procurou na boate mais próxima de casa… Mas disse sim pra mim mesmo, e também para a noite incrível que foi para o meu corpo, enquanto ele durou. Minha agora “ex-mulher” parece conhecer bem essa moda de bater em homossexuais com lâmpadas fluorescentes.

Tudo me custou um preço muito caro, equivalente a metade do carro, da casa, de toda a herança dos meus pais que me deserdaram no dia seguinte… Mas me mantive no trabalho e em um apartamento que aluguei ali perto. Perfeito para tomar café da manhã em uma certa padaria, que passaria a ser visitada por um certo casal, até que este casal começou a se beijar à mesa, o que provocou a ira do Sr. Norberto que nos expulsou do local. Que pena, fomos obrigados a migrar para o meu apartamento.

Perdi família, casa, carro, amigos. Mas ganhei algo muito melhor: uma carinha de prazer, para não falar tesão, que Jefferson faz todas as noites em um certo apartamento, que eu agora chamo de casa.

Mateus M. Nascimento.


“Sinto falta de alguém que não existe.”

Mudança de ritmo.

O vento corre, a enxurrada corre, o ladrão corre do carro com o carro, por ventura roubado. Corre-corre que faz parte da corrida diária do delegado, que vive em uma maratona junto do resto da cidade. Cidade formada por pessoas que correm, correm, correm, que só não compram o tempo porque precisam dele para arranjar dinheiro.

Eu não sou da fazenda, mas sim da cidade. Logo, como todo mundo da cidade, corro como quem corre da morte ou de alguém que a morte pegou e colocou para correr atrás de você. O dinheiro sempre fica longe, muitos segundos à frente, só que se eu parar sou pisoteado pelos que vêm atrás. Logo, só me resta correr, correr, correr… E, como fazer o que não se gosta é gerar um desprazer é eterno, me forcei a gostar. A gostar de correr, correr e nada mais.

Fixo sempre na corrida, dando qualquer energia que surge, até não sobrar nenhuma. Todo fim de ano ela acaba um pouco, depois de tanto perseguir e gastar, o combustível acaba. Cansei de correr e comecei a andar.

Como todo mundo no fim de ano, comecei a ver o dinheiro de longe… Cada vez mais distante. Já não valia mais a pena só ficar olhando para ele, perdeu o sentido. Para matar o tédio, tive que olhar para trás. Logo vi que os outros também andavam e olhavam para trás.

O que viam, eu não sei, já que só sei o que vi. Vi a verdadeira face das pessoas, vi como elas são por completo e, melhor, vi que elas existem. Além disso, vi, mais atrás, toda a distância, tudo aquilo que deixei só para correr. Fiquei um pouco mais sábio (pensativo, adquiri alguma sabedoria pela reflexão, o que é pouco, um pouco mais sábio). Parei de correr.

Agora, para dedicar todo o meu esforço a me lembrar de tudo de bom que deixei para correr em uma corrida que fui forçado a querer ganhar, me deito. Para lembrar-me do local anterior a este, no qual tive que me adaptar. A força externa que me fez focar em apenas um algo físico, não em algo que sempre me fez feliz. Refleti no que foi e que não foi bom, mas mesmo assim me fez sorrir. Saudades é um sintoma comum nesses casos.

Isso não por muito tempo. O som me fez olhar para trás de novo e ver que o mesmo, provocado pelo bater dos pés para ganhar impulso, significa que logo o ritmo vai aumentar. É correr ou morrer pisoteado.

Sendo assim, só me resta uma coisa: correr.

Mateus M. Nascimento.


Psicótico.

Eu já não consigo mais dormir. Não pela insônia em si, não pela cafeína que me tira o sono. Sim pelo objeto que escondem atrás do travesseiro. Esse algo estranho, estranhamente me faz pensar. Pensar sempre. Sempre que me coloco sobre o travesseiro.

E assim, de repetente, me surge, se expande, sem pedir licença, tudo aquilo que escondi, em avalanche de mim mesmo. Que coloquei no armário sem a menor organização. Tudo cai para cima de mim como quem se vinga.

Desde então não há quem durma, ou se concentre, ou mantenha a calma, a felicidade, a tristeza, a razão! Pelos gritos que se ouve, pelos lamentos, pela dor. A dor que parece tanta daquele homem estranho que grita, ensurdece, enlouquece, a mim, a si mesmo, a todos. Gritando além de dores, clamores, suas tristezas, seus amores, traições, sim, dores e mais dores. Aaaaaaahhhh! Não se vive assim.

Chamam-na de “doença ruim”, mas se não fosse minha psicose, jamais eu teria um revólver ao meu lado. Um tiro, antes de qualquer “ai”, dois tiros. Um sopro, dois sopros, um suspiro. Outro tiro para garantir. Um homem morto, um fim.

No fim parece bom. Para mim, para todos. Uma paz boa enquanto dura. Previsível, racional. Sinto-me senhor de mim mesmo. Até que o fim não parece mais fim. Quando o pensamento deixa de ser racional. Um verdadeiro buraco negro em uma mente humana que não se livrou completamente de sua natureza irascível.

E nesse momento, tudo parece começar de novo. A pessoa surge cada vez pior, ou melhor. Pois, quanto maior a dificuldade, maior o mérito. A frieza ordena, a razão obedece. A proteção vem como consequência.

O homem me é irrelevante, ainda que me tenha feito mudar em tudo. Frio, racional, psicótico, bélico e mortal somente para ele. Para a bel proteção de mim mesmo, contra tudo aquilo que ele clama. Para manter-me vivo, mesmo sem saber mais o real sentido de tal palavra.  O fim pelo fim…

Mateus M. Nascimento.


A perdi…

Por todos os meses que parado fiquei, apenas pensando em como tudo seria diferente se estivesse aqui. Nenhum sentimento oblíquo em cárcere, nenhum impulso sem controle, nem um verso mudo ou até mesmo filosofia que não se tornou prole.

Em todas as metáforas que me fez dizer, um sentido novo deu a cada nascimento. Com elas fiz prosa com cara de verso e versos sem cabeça ou pé para todo aquele que não sou eu.

Hora qualquer você aparece. Como quem aparece apenas para recordar-me de sua existência, ainda que breve, ainda que distante. Obliterar é a palavra e sentir falta já é pouco para quem disso viva, disso ocupava o tempo, de tudo o que me trazia arranjava um sentido que me fazia feliz.

Ainda que por muito tempo perdida, sei que volta. Não volta pelo simples prazer de voltar. Prazer do qual parece viciada, isso pelo modo como vai, vai como quem apenas pretende voltar de novo.

Mesmo assim ainda não sei: se vivia de sentimentos, se vivia de ti, se você vivia de sentimentos ou nada relacionado. Não sei se você fugiu de mim, se fugi de você ou se ainda assim te fiz ir embora.

Mesmo que tudo pareça conspirar contra, sei que pode e vai respirar em mim de novo. Sei que inspirar é necessário ao respirar. Logo, se me falta tal “respiração”, ainda sei que tu falta me faz, ó INSPIRAÇÃO. Mesmo porque já me cansei dessa brincadeirinha de esconde-esconde…

Mateus M. Nascimento.


Os elfos também não existem.

Não são apenas lendas, são histórias. Os nórdicos e os celtas eram povos sábios. Não vou duvidar deles. Boa parte da nossa moral nerd vem dos elfos. Por que não adorá-los?

Quando você precisar de um emprego, peça a um elfo em silêncio. Você se sentirá fazendo alguma coisa ao menos. E, depois que o seu amigo avisar-te de uma vaga de emprego que lhe foi informada por um outro amigo, não esqueça de agradecer aos elfos. Você pediu. Aconteceu, não aconteceu?

Li uma vez em um livro que sim, eles existem. Operavam magias na Europa, e isso não faz muito tempo. Os milagres de uns dois mil anos atrás a gente sabe que aconteceu. Mas tem outros mais incertos que também acredito, como daquele cara que se diz elfo… Melhor não duvidar. Elfos são elfos…

Elfos têm tanta classe que até dispensam o avanço da ciência. Quem criou o mundo? As partículas? Puff. Só podem ter sido os elfos. Eu li no livro segundo Völundr que eles criaram primeiro o mundo em três dias (amadores criam em seis e ainda descansam) e, logo depois, fizeram umas sacanagens… Uma cria defeituosa deles foi chamada de “homem”. Não gostaram dele, fizeram outro. Nasceu sem costela. Arrancaram do homem e transplantaram no outro. Chamaram o segundo de “mulher”.

Resta dúvida do poder supremo dos elfos? E então? Como continuar nessa vida de escuridão? Venha adorar os elfos você também. O pastor não tem varinha mágica que eu sei… Só não se esquece de uma coisa: os elfos também não existem…

Mateus M. Nascimento.


Certos beijos não superam alguns abraços.

Eu trabalho com a tese de que as pessoas são mais sensíveis do que a maioria pensa ou até mesmo do que você mesmo pensa. É irracional pensar que se é invulnerável. É certo se recordar de todas as vezes que você quis chorar, mas não o fez por motivos pessoais.

Falo por mim mesmo. As piores doenças são as que não têm cura. Minha cura muitas vezes sou eu. Minha consciência me adoece quase sempre. Sempre que penso no que não fiz e deveria ter feito eu me acho um tolo. Sempre que não tenho a resposta eu me acho burro. Sempre que um “melhor amigo” dá mais atenção para outra pessoa, eu logo me taxo “o infeliz”, “o solitário”. Isso quase sempre… Se não sempre.

O fator consciência… O fator ciúmes… Unidos então… Quando me sinto solitário, abandonado por uma amiga que amo muito e esta, por exemplo, está lá abraçando e rindo com outrOS amigos… Logo me sinto excluído, solitário, triste… Pela simples neurose. Depois vem o ciúme, que acaba gerando ódio, desconforto, nova mágoa, nova tristeza…

E tudo ainda pode vir maximizado pelo estresse. A vingança, quando não parte à vítima, retorna ao vingador em forma de estresse. As pessoas que quis esganar, mas não pode; o que eu quis dizer, mas não disse… Tudo isso volta e me deixa sem vontade de pensar, de agir, de existir…

Tudo isso tira algo de dentro de mim. Esvazia-me. Tira tudo o que havia de bom do qual podia sentir. Só resta um vazio… Complexo vazio… Um abismo…

Mas em um momento certo eu não consigo segurar o riso, o sorriso, a brincadeira, as alegrias… Uma felicidade surge do nada… É como se simplesmente ver um sorriso exterminasse com tudo o que havia por um certo momento… Isso até o abraço… Parece que eternamente tudo termina, tudo acaba. Parece que o amor completa o vazio que antes existia… É clichê, é estranho, é real…

É como se tudo passasse como o vento passa pelas folhas de uma árvore… Como se o sorriso brotasse como flores na primavera… Como se voltasse uma inocência em mim que nota que nada disso (de ruim) é real… É puro, é belo, talvez mágico, talvez insubstituível… Sem dúvida único. Como se o simples gesto de amor transformasse o amar numa lei e eu houvesse sido nomeado juiz podendo dominá-la apenas para poder esquecer-se de tudo… Esquecer-se de tudo… Pois para amar não se pode lembrar mais nada…

Um amor simples que me completa e é independente nunca vai doer. Um gesto simples que não tem culpa e nem prazer, não vicia, não escraviza e só tem um único motivo: o amor… Puro, simples, espontâneo… Reconstrói das cinzas como nunca se faz ou pode fazer… O que me leva sem dúvida alguma a concluir que, alguns abraços são infinitamente melhores e mais necessários que muitos beijos…

Eu não posso, não quero, nunca quis e nem vou querer trocar essa relação simples, sincera e de amizade por nada. Nada.

Mateus M. Nascimento.


O sentimento, o abraço e vinte curtos longos segundos.

Comum, porém anormal. Insensato, passional, extraordinário, ainda que rotineiro, ainda que imortal… Que não está sujeito às leis do tempo, atemporal, anormal, imoral, ainda que descritível… Ainda que um sonho, um sonho permanente, permanentemente um sonho. Um sonho do tempo. Do tempo comum, comum e fora do normal.

Doce, ainda que banal. Doce, mas não enjoativo… Tudo aquilo que me faz passional, que me faz amar… O momento, o pensamento, o sentimento… Que diferente de tudo, me faz querer o normal, o banal, o crítico para mim, ainda que enfrente de forma anormal. Que enfrente com vontade. Vontade de mais, demais.

Mais tempo. Mais… Tanto que me faz viajar no tempo… Fora da escala temporal… O sonho me faz querer tudo mais lento, para que dure mais… Assim eu quero, assim eu faço, num ritmo imortal, imoral, impertinente, sensacional…

Segundos são longos. Centésimos, milésimos… E tudo aquilo que possa medir… Só quero mais… Mais lento… Parado… Só quero que dure.

Faz-me ignorar minhas próprias leis da moral… Faz-me criar expectativas, cria em mim mesmo um ser anormal… E insisto na ausência… Do pensamento, da vida, do sentimento… Insisto no espírito que chega através do vento, de forma irracional… Ausência do pensar racional.

Um passo, um segundo… Muito… Muita perca de tempo… Já se foi. Meu conceito de muito agora é reduzido. Reduzido para o ato, longo fato… Do passo, por passo, por querer, sentir… O meu ir, o seu vir… Economia…

De tempo… Simplesmente eu olho, paro e sinto… Nos seus olhos encontro um vazio… Parece-me o mesmo que o meu… O que eu tenho é pouco. O que você é me faz falta. Ausência, veemência. Ausência do amor em pessoa, que se doa, sinto que para mim, apenas (um sonho apenas). Apenas para mim.

E o que basta? Um… Dois… Segundos… Sorrisos… Mas o tempo passa. Lento, porém rápido… Será minha vontade extrema? Necessidade extrema? Pensamento extremo? Só sinto passar enquanto vejo, enquanto o amor sinto, o tempo também sinto. Queria apenas sentir o amor… Um milésimo, dois… Que tempo rápido…

É impossível não se preocupar com o tempo… Eu quero ver pra sempre esse sorriso, me manter eternamente à sua frente… Esse sorriso que ao mesmo tempo diz “sim”, diz-me o quão racional sou em te amar, ao contrário do que sempre pensei… Amar… Apenas me entreguei a ele, o sorriso… O resto… Tudo dele vem… Do sorriso, amável sorriso…

Tempo? Curto, mas confere. Vontade? Confere. Amor? Confere. Melhores amigos? Ao menos para mim, mas confere. Indiferença de quem vê? Não, mas que se dane. Braços estendidos? Ainda não. Mais um milésimo é necessário… E lá se vai o tempo. Necessário tempo. Vamos, se entregue, também vou me entregar…

Corpos… Calor… Reticências… Sempre demonstrando continuação, duração… Justo o que mais quero… Energias: força tua que me aperta, força minha que te aperta… Bom é pouco: gostoso… Nunca senti o amor fisicamente assim… O amor puro… Sem interferência da culpa religiosa, da culpa social, da dor do sentimento, do sofrimento, do prazer que escraviza… Simplesmente se sentindo necessário ao amor, à sua existência, à “amizade”… Experiência…

Tempo, colabore… Pare, simplesmente pare… Quero sentir isso para sempre… É bom, sensacional, irracional… Constrói, me constrói… É mais necessário para mim que água, alimento, que uma boa noite de sono… Mais necessário que viver… Um simples sentir…

Sentimento esse que quero mais. Do real, do sentimental… Da leveza das mãos, do bater dos corações, da aproximação… Do amor em expansão, do sentimento em evasão, efusão, em ebulição… É simples. Simplesmente bom… Sou capaz de ver seu sorriso às minhas costas, seu sentimento ao lado direito do meu pescoço… Como eu disse: banal, porém sensacional…

Já me sinto desacordado… Embriagado… Inebriado… Numa brisa incessante… Um sonho que se realiza. A ironia de que, por um pequeno espaço de tempo, me sinto parado no tempo… Mesmo sabendo que já está terminando, tudo me vem à mente…

Sinto ao mesmo tempo… O amor de hoje, de ontem, de anteontem… O amor de sempre, fundido num só… Num só amar… Num só sentimento, pensamento, momento… Momento esse… Todo o meu amor num só momento… O tempo parou pra mim, mas até o vento, com sua brisa gelada, o sente passar…

Eu tento pensar, ser racional, mas minha mente está nas nuvens… Agora só quero que dure, que dure para sempre… Passaria horas ali, dias, anos ali… Estou certo que o amor é suficiente, duradouro, tenaz…

Mas já bate o desespero, a ética, o contexto… Ahhh, não! Tempo, não… Realidade, não… Já vai… Não… E os milésimos passam, os centésimos passam, os segundos passam… A vontade continua. Seus braços me soltam… Mesmo sendo contra, os meus também te soltam… Queria soldá-los a você… Braços traidores, porém necessários… Fontes de amor, de abraços…

E finalmente, a distância… De menos de um metro, eu sei. Abraçaremo-nos de novo, eu sei. Parece drama da minha parte, eu sei… Mas agora, já foi… O tempo passou, lento, mas passou… Não era para passar.

E de novo tudo me vem à mente. Do quão bom foi… Do sonho de ser eterno… Da vontade paralela a do abraço de dizer em seu ouvido, baixinho: “te amo”… Mas será que era realmente necessário? Acho que já parece óbvio… Eu viveria só desse amor…

Mateus M. Nascimento.


O Tumblr e seus (raríssimos) bons escritores.

Vou te lançar um desafio. É um belo dia de Sol em Paris, mas na sua casa em Cubatão está chovendo. Você, jovem teimoso, mantém o computador ligado durante os “raios”. Sim, você é um apaixonado por textos, traça desde Filosofia platônica ao gibi da Turma do Mônica. Porém, sua emoção atual é: ler textos no Tumblr.

Vamos lá, tente. Use todo e qualquer mecanismo. O desafio é: encontrar um bom escritor que nunca tenha escrito um livro, não seja famoso e que você nunca tenha lido antes. Pode ir lá no Google, no Alta Vista, Busca Pé, Ask (existe), Bing ou no próprio mecanismo de busca do Tumblr. Duvido que você ache um bom escritor por essas bandas.

Você vai chorar. Vai chorar ao ver todas as “merdas” que são postadas, dentre elas incluo esse texto. Você vai encontrar textos que confundem “mais” com “mas”, textos de desabafo que sequer preocupam-se em escrever o texto alternando entre “maiúsculas” e “minúsculas”. Irá encontrar textos para o ídolo, para a vó, para a mãe. Quando encontrar estes textos, sinta-se feliz. Guarde suas lágrimas quando notar uma coisa: uma grande quantidade de textos fala sobre um assunto em abrangência.

Esteja certo, você irá ler sobre a distância entre amigos/namorados/amigas/namoradas, sobre o amor não correspondido de alguém, pessoas desiludidas com o amor e a paixão, pessoas falando porcarias sobre religião (isso é verdade, não seja hipócrita), textos xingando a sociedade, defendendo os direitos dos animais de forma fofa (irreal), coisas que acontecem no namoro e parecem fofas e, o assunto-mor: auto-ajuda.

O duro é que você ainda pode chamar tais pessoas de criativas. Elas não vivem postando Clarisse Lispector, Tati Bernardi, Caio Fernando de Abreu e algum outro… Elas são ao menos criativas. Ao menos elas pensam. Deviam expor mais a cultura do pensar do que a cultura do: “awn, que fofo *-*”.

Essas são poucas coisas que você vai achar, encontrará sem dúvida piores, merdas maiores, sem dúvida. Aliás, já encontrou esse texto. Eu escrevo por esporte. Não escrevo bem, confesso e me incluo em um assunto: os revoltadinhos. Mas são palavras que merecem e precisam ser ditas. Pois enquanto grandes pequenos escritores do Tumblr morrem com seus 2 notes, grandes frases como “Meu bolo é de chocolate *-*” ganham 2000.

É a realidade meus amigos. Isso não é apenas um choro, é a realidade. Realidade dura. É mais fácil comprar vinte Tele Senas com uma nota de sete reais que encontrar um bom escritor no Tumblr.

Mateus M. Nascimento.


Autocompreensão.

Eu sou livre, ou melhor, somos livres. Eu não sou feliz, queria ser, mas será realmente necessário? Tantos se questionaram, pensaram, refletiram, matutaram sobre tais questões, tais afirmações. Foram livres para isso. Foram livres para pensar. Foram livres enquanto pensavam. Pois todo homem é senhor enquanto pode usar a razão. Todo homem é escravo quando está preso a uma “paixão”.

Como eu disse, não sou feliz, mas quero ser. Quero ser no sentido amplo da felicidade, no sentido de quem deita a cabeça no travesseiro e não tem medo do que vai encontrar pela manhã. Não tem medo porque é livre para moldar a situação, não contorná-la. É feliz porque é livre, e nenhum homem é feliz quando lhe é atentada a liberdade.

Sentimentos me são uma dor. São como uma doença. Preciso conhecê-la para enfrentá-la poder. Preciso saber como ela age, para agir nesse ponto. Entender com ela nasce para preveni-la. Os sentimentos,como acontece com as doenças, hoje faz parte de mim. Preciso entender essa minha doença. Logo, eu preciso me autocompreender. Entender o “por que”, o “como”, o “onde”, o “quando”, o “o que”…

Vou começar pelo que eu sinto por agora. Estou bravo. Estou triste. É só. Bravo e triste na tristeza de não ser bravo o suficiente para enfrentar a bravura de um triste sentimento, do qual fujo por lógica. O afeto.

Mas então, por quê? Deve ser por me sentir traído pela minha própria lógica, como sempre. Lógica podre. Lógica infectada com o afeto. Ela me disse que eu deveria ouvir o criado entendimento, que me dizia: “essa garota pode lhe render alguns sorrisos”. Talvez não seja uma traição. Talvez eu já estivesse destinado a isso. Eu iria de qualquer jeito. Como não notar tal fato?

Eu lia em seu rosto uma graça que cada vez mais me atraia. Fui atraído pelo seu jeito simples a simplesmente aproveitar a primeira oportunidade de conhecê-la. Fui atraído por essa graça, foi essa graça que me traiu. Foi ela que me fez ler escondido no brilho ofuscante do seu sorriso que nenhum sorriso brilha o suficiente para esconder a tristeza de estar preso ao simples sentir. Eu já a amava sem nenhum certo ponto. A livrá-la me dispus e tentei, juro que tentei. Eu não era livre para não tentar. Eu a amava de um jeito diferente, distinto daquilo que sempre senti. Eu não a via simplesmente como uma “amiga”. Apesar de sua beleza, nunca me senti atraído por ela, eu não a queria pra mim (ela não faz o meu tipo). Eu só a queria mais feliz que tudo, mas feliz que o mundo. Só queria para ela uma felicidade que começava ali. Dali cruzava o mar.

Eu tomei dela ao menos uma pequena fração da sua dor somente para que eu mesmo me determinasse a resolvê-la, do modo como ela merecia. Eu só a queria bem. Eu a queria livre, a queria racional. Bati nessa tecla por meses sempre lhe dizendo: pense sempre.

Com o tempo, eu já sentia as mesmas dores que ela, não sei se do mesmo jeito, mas eram as mesmas. Já me era uma entrega completa. Já era completamente diferente de antes. Ela já se sentia mais livre. Livre a ponto de tornar-se libertina. Livre a ponto de se tornar aquilo que sempre reclamou que lhe caluniavam, não na mesma intensidade, mas eu sempre disse que aquela menina não era a libertina que tentava ser. Mas era o inverso.

Depois de tudo isso, fica fácil entender esses sentimentos. Eu só estou bravo e um pouco triste. Mas não é nada. Já posso me curar.

É só isso porque eu mudei por causa dela. Deve ser porque eu esqueci o que é ser verdadeiramente eu para tentar fazê-la feliz a meu modo. Deve ser porque para salvá-la da ilusão, eu abri a porta de saída para a minha razão. Talvez também seja porque eu me matei para entendê-la, para aconselhá-la, para vaciná-la daquilo que eu a ajudei a fugir, para mantê-la a salvo enquanto eu brigava com as minhas próprias razões. Eu a amei acima de tudo e a tornei um motivo de felicidade e de dor, do qual estava disposto a sorrir e lamentar junto dela. Eu tanto falei, tanto fiz do fundo do meu sentimento só para vê-la sorrir. O problema é que ela não estava escutando. Nem se importando estava.

Falando sozinho estava… Falando sozinho eu estou… Tentando entender a mim mesmo. Ainda não entendo. Parece-me tão óbvio que devo, mas por que não desisto de ensiná-la o que sei sobre a felicidade que nunca vivi? Por que ainda quero para ela a felicidade simples que nunca irei alcançar? Por que eu ainda me importo?

Mateus M. Nascimento.


Minha dependência, meu erro, meu vício.

O que meus olhos já viram, guardo em minhas pálpebras. Nestas pálpebras escondem-se as brincadeiras bem e mal realizadas, as festas bem e mal aproveitadas, o rosto bem e mal encarado, o que se aproveita e o que não se aproveita… Nestas pálpebras eu escondo o passado, que posso visitar a qualquer momento olhando o verso delas, simplesmente fechando os olhos…

Nesse meu passado curto, jamais poderia dizer que já vivi de tudo, a metade de tudo, um quarto de tudo… Só poderia dizer que quase nada vivi, mas que de quase tudo aproveitei, talvez não do modo esperado.

Eu já tentei levar uma vida normal, encará-la com olhos comuns. Olhar para o céu com a mesma indiferença com que piso o chão. Porém desde cedo descobri que não sou assim. Touro solitário por causas geográficas desde a infância, toda ideia nova me era reprimida, toda amizade nova me era imaginária, todo novo sorriso me era diante da televisão. Aprendi a viver sozinho, a não depender de ninguém. A felicidade materializou-me enquanto sozinho, por tudo aquilo que fiz só. Tive o orgulho como combustível, a revolta como causa, o ego como deus e a anormalidade como mandamento. Nunca seria aquele que queriam que eu fosse.

Talvez eu tenha feito o correto. Por enquanto, não criei meia expectativa. Pela inocência, o eu adolescente teve de criá-las e, caso não, mais dia menos dia a vida me ensinaria isso pelo jogo do acerto e do erro. E tal jogo me ensinou que sim, eu estava certo. A expectativa é uma teoria e teorias são questionáveis. Não questioná-las é pedir para sofrer. Questioná-las é ser racional. Com a lógica fui levado à racionalidade. Com a racionalidade, fui levado à frieza de espírito.

Eis o modo com que aprendi viver. Cuspindo no chão para aproximar-me do céu. Dizendo “dane-se” a qualquer novo sentimento. Focando naquilo que importa. Taxando de supérfluo o que outros tratam como essencial, tratando como essencial aqui que taxam de supérfluo, taxando de fascinante aquilo que chamam de chato e taxando de grande aquilo que taxam de anormal e excluído: eu.

Mas, por que então esse ano tudo tinha que ser diferente? Eu nunca fui ciumento, eu nunca fui superprotetor, atencioso, preocupado, sociável… Nunca fui alguém que se importa com alguma coisa, que pensa para falar, que lamenta as tristezas alheias, que deu valor a um amigo dessa forma de sucesso…

Eu não sei se sou assim ou se nunca tive alguém que comigo se importa de forma real, ou talvez eu esteja enganado, pois ainda não o tenho. Só sei que depois de você eu não penso mais com a mesma lógica, eu não ignoro tudo aquilo que não me parece proveitoso, dando valor àquilo que lhe faz bem. Nunca usei a lógica para dar um conselho, nunca trocaria minha felicidade pela de alguém, nunca dediquei a alguém minha eterna preocupação, nunca disse um “eu te amo” com tanta sinceridade…

Graças a você eu aprendi o que é um amor sem vigésimas quartas intenções. Tudo o que nunca cogitei fazer antes o fiz simplesmente por amar. Nisso incluo minhas eternas preocupações que dediquei a você, o meu infinito ciúmes que dediquei a você esquecendo-se da lógica e da razão, todos os sorrisos que nunca sorriria, todos os olhares que me eram fora do comum… Simplesmente tudo em mim que mudou.

Só sei que me deixei levar de novo pela expectativa. Eu te prometi meu amanhã com toda a certeza que podia expressar com aquele amor que estou certo que sinto. Você me prometeu seu amanhã do mesmo modo, não sei se exatamente, mas confio nisso, mesmo que pareça ilógico, coisa que nunca faria antes.

Eu aprendi a viver sozinho, mas depois reaprendi a viver tendo você comigo. Você me deu aquilo que eu nunca tive, os amores que sempre quis. Você curou minhas feridas e me prometeu “ontem” o seu amanhã.

Eu já não sei mais viver sem você e num ato de desespero lhe pergunto agora: eu te amo, mas cadê você hoje?

Mateus M. Nascimento.


Um egocêntrico de cera.

Eu me perdi. Torno a me perder a cada hora, minuto, segundo… Instante. Perdi minha própria lógica, perdi minha própria razão, perdi a minha noção, perdi a razão do meu próprio sentimento, perdi o controle da situação. Logo eu que sempre fui lógica, eu que sempre fui razão, que sempre fui pura noção de tudo, que sempre fui a razão dos meus próprios sentimentos em minha essência, que sempre tive o controle da situação. Na verdade, eu simplesmente perdi a mim mesmo.

Soltei a mão da minha própria lógica. Por isso a procuro em tudo. Mesmo antes, sempre a procurei. Agora que eu a vejo em falta, sei que dela necessito mais que nunca, mais que tudo, mais que sempre. O tudo que sempre tentei explicar, o sempre que tentei e tento explicar, sempre, até o limite da própria lógica, que não sei onde foi parar.

Ando às cegas por esse lugar sem fim, que ora me parece metrópole, ora me parece vila, ora me parece mata, ora me parece campina. Irracional a tudo. Eu vivo, vivia e sempre viverei da lógica e para a lógica. Sem ela não vivo. Sou apenas mais um idiota esmurrando a parede, dominado por um sentimento ilógico, ilusório, nada irrisório… Perdi-me da razão.

Da razão, da lógica, da noção… Seja do tempo, do local, de tudo e de todos, que dependo ou não, já não sei nem se vivo, se estou vivendo e o que deveria julgar para que o saiba… Isso além da tênue linha entre o tal e a loucura, a fissura, aquilo que perdi ao bater com o vento, ao perder o pensamento… Dessa loucura jogada ao ar, ao vento, ao mar… Sem ela perco-me no tempo.

E tudo sempre me pareceu encaixar-se num gigante quebra-cabeça. A lógica que se monta sobre qualquer sentimento, que o domina, que me mantém no controle. Eu que me acreditava frio e imune, não posso ser esse mero mortal confuso sobre tudo… Quão idiota fui por pensar assim… A lógica rendia meu amor e meu amor sumiu com minha lógica… Não tenho controle sobre mim. Nem sei onde estou. Perdi-me.

Perdi-me por cercar-me de mim mesmo e para eu mesmo dedicar o mundo. Um mundo que fiz para mim, do qual podia explicar tudo, controlar tudo, viver acima de tudo sem depender de nada nem de ninguém, até notar mesmo assim que era mentira.

Perdi-me também por olhar a ferida em mim mesmo e julgá-la irrelevante a ponto de ver o câncer alastrar-se sobre mim mesmo, pelo problema que eu mesmo criei, no universo que eu mesmo criei.

Criei para que eu necessite procurar em dois universos distintos. Não é burrice nem egocentrismo, é apenas um terceiro engano além dos dois que acabo de proferir.

No fim, eu mesmo fui negligente com minha própria lógica, que me levou a ser negligente com meus próprios sentimentos. Ignorando-os, fui negligente com minhas próprias dependências até que elas assassinaram-se. Agora vivo em eterna abstinência, procurando por tudo sem fazer nada, chorando por nada e explicando tudo, sem a lógica do nada e o triângulo de quatro lados…

Eu dependo daquilo que sempre neguei. Eu sumi com minha própria lógica. Tudo é fruto da minha soberba. O câncer é fruto do meu egoísmo.

Eu, um eterno egocêntrico de cera.

Mateus M. Nascimento.


Dilema, cíclico dilema, cíclico.

Uma questão sem resposta

Um paradoxo

Na ciência da dúvida

Um ramo ortodoxo

Tão definível quanto a própria situação.

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Quanto mais descubro

Mais descubro que não sei

Seja na matemática um teorema obscuro

Seja na vida um sentimento que nunca pensei

Tão compreensível como a própria situação.

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É a metafísica que me intriga

Não sei se existe um eu

Não sei se você existe

Existe um Deus?

Bem menos que a situação.

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Mais que isso

Um simples olhar para a vida

Uma simples epifania ao ar

Um simples pensamento para reconhecer o sumiço

Do meu poema escrito na areia em frente ao mar.

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A cada “eu te amo” uma nova certeza

A cada segundo depois uma nova questão

E por mais que eu me veja com a destreza

Tão destro sou

Tão o sou quanto ao lado presente o coração.

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É só mais um dilema

Um mero problema

Que hora vai

Hora volta

Sempre a mesma situação.

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Sempre tão indefinível quanto

Sempre incompreensível a mesmo tanto

Sempre bem menos do que parece ser

Tanto que é um problema sempre ignorado…

Acho que já o incorporei ao meu jeito de ser.

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Mateus M. Nascimento.

 


Um olhar para o amanhã.

Falar do amanhã é mais que lindo, é estupendo, é mais belo do que parece ser. O amanhã não é flor, não é sonho, mas nos nossos sonhos parece que sempre resolve aparecer, florescer, sem te pedir licença.

O amanhã persegue os pessimistas. É a palavra preferida dos sonhadores, também que mais foi perseguida pelos suicidas. Seja pelo fato do inesperado vir com a amanhã, seja pela folha em branco que ele nos é, seja pela sua ausência nas memórias… Ele protagoniza todas as histórias. Nos leva do presente pensando… Para aqueles que dormem, de supetão chega… Para aqueles que vivem, vem chegando sem perceber, sem perceberem… Simplesmente vão vivendo… O amanhã melhor vive na alma dos poetas.

O amanhã vive no meu presente mais que no meu futuro. Alimenta meus sonhos. É minha história para ser escrita, me permitindo imaginar. Imaginar no futuro um mundo completamente diferente ou onde meus problemas deixem de existir, ou onde as belezas que vivo nessa vida estejam mais que presentes, sorridentes vivendo pela simples beleza de viver para o melhor da vida.

Quero viver no amanhã para aquilo que eu sinto, também quero no meu amanhã algumas coisas do meu presente, algumas coisas que eu não preciso pagar, nem que eu serei cobrado com juros.

Eu quero olhar para o amanhã com o mesmo brilho destes teus olhos, só que mantendo este brilho também lá. Este brilho que é mais que sinônimo de sonho, sonho de beleza, de existência e também são os olhos de quem sonha. Quero sonhar com esses olhos. Quero ver o mundo com eles.

Quero ver no futuro a mesma beleza que vejo agora, que me servem a qualquer hora como consolo para tudo que é de horrível que vi da vida. Quero continuar maravilhado com o que nunca tinha visto antes de você e só continuo vendo em você. Perfeição essa sua que ultrapassa o limite do sonho, que ultrapassa os limites, qualquer limite, qualquer sonho, qualquer coisa que eu possa imaginar… Não quero você linda como hoje, quero você mais linda no amanhã também.

Quero amar no futuro a mesma amiga que amo hoje, só que mais sorridente. Não quero que você esqueça nada, só quero que você esqueça como se chora, e troque cada lágrima por mil novos sorrisos.

Sei que terei amanhã mais amor que tenho hoje. Sei que terei amanhã a mesma amiga que tenho hoje. Sei que terei amanhã os mesmo motivos para sorrir que tenho hoje, e eles continuarão vindos dela. Sei que terei o mesmo consolo em suas palavras, os mesmo sorrisos nos seus risos e as mesmas maravilhas nos teus sorrisos… Pra sempre.

Mas eu não quero só isso. Quero poder rir amanhã do que ainda ocorre hoje, quero poder dizer amanhã que te amo mais que hoje, poder ser amanhã um amigo mais próximo daquilo que você merece, poder ter as mesmas covinhas sendo exibidas a minha direita, esquerda, dando mais brilho pra tudo…

Quero te ver no futuro… Um futuro em que você esteja mais que inteira na minha vida, que seja cada vez mais presente, mais consciente, mais viva… Quero que você seja pra sempre você… Sempre mais você, sempre mais que linda, mais que amiga, mais que perfeita…

Quero você lá mais amiga que é hoje, mais linda que é hoje, mais inexplicável que é hoje, mas, acima de tudo, quero você lá, no meu amanhã, pra sempre, pra que eu possa te amar mais que te amo, mais que te amo hoje, mais que te amarei sempre…

Esteja lá mais que nunca, não me esqueça nunca, esteja sempre ao lado, em uma amizade que não conhece a palavra “nunca”, pois sei que durará para sempre. Promete me amar pra sempre? Pra sempre sem esquecer essa sua perfeição?

Mateus M. Nascimento, escrevendo de forma mais bela para a alma mais bela, que também é chamada de Gabriele Quirino.


Por mais que ela.

Por mais que ela, a modéstia, diga que não, eu digo que sim, sempre direi, me esquecendo de qualquer olhar indecente, com um sorriso no rosto, me faço uma pergunta quase inconsciente: se Deus existe ele é meu camarada, pois não são todos que podem ver isso.

Eu vejo tudo, tudo o que posso, a qualquer distância, ela não. Ela só vê de perto. Pra mim é desculpa, sendo assim, dizendo que quer me ver mais de perto, só aproximar os olhos, acaba, com esse pretexto, se aproximando mais e mais, e mais, e mais… Que miopia que nada… É amor.

Espero que seja, seja esse o motivo. Que do amor nasça o seu riso, pois em caso contrário, mal me vejo num circo, seria eu um palhaço? Não é a que mais ri, nem a que mais sorri. Mas ri sem se importar com o que qualquer um possa dizer, pensar, falar… Simplesmente ri, sorri, como se não houvesse amanhã. Eu ainda peço, ria sempre, eu estando ou não, não sou egoísta, não prive ninguém de ver esse lindo sorriso e, por mais que alguém insista, siga a risca essa história de não se deixar no chão.

Juro eu que já a vi chorando. Não quero ver de novo. Juro também que, caso veja, correrei sem contar o passo para perto ou para longe. Seja perto para dar um abraço ou para longe para pensar sem cansaço numa forma de trazer ela de volta… Gabriele não é simplesmente Gabriele. Ela é feita de riso, sorriso, miopia e covinhas. O amor por mim vem à parte.

E como é difícil escrever esse texto mantendo o mínimo de cavalheirismo. Conhece algum homem que falaria de uma linda mulher pensando em como vai relatar suas características físicas? Eu digo não dizendo que diria que ela é linda, a parte, sem parte, mas, vamos por partes: todo mundo diz isso. Por que duvidar?

Ok, eu admito, é bastante fácil duvidar. Duvidar da sua existência. Gabriele existe (ou não), se nada é perfeito, da perfeição eu duvido a existência. Gabriele é perfeita. Gabriele existe? Eu descubro isso na prática. Vendo, sentindo, ouvindo, testando, vivendo suas qualidades. Seja de amiga que dá o ombro, seja de amiga irreverente. Que compete por tudo, por tudo o que pode, que não pode. Quem pode mais, que mais pode…

Por mais que ela, a modéstia, faça-a dizer que não, eu digo que sim e você também pode ver, testar, provar com seus próprios olhos. Este texto eu não escrevi, não de mim, não de alguém mais, este texto está escrito na Gabriele.

Ela é o que diz aqui, o que diz aqui ela é e muito mais. Muito mais além do que eu poderia dizer. Muito mais além do amor que ela sustenta por mim, só falta admitir com totalidade. Por mais que eu duvide que ela exista, minha loucura insiste em dizer esquecendo-se da modéstia: eu sei que você me ama. Estando eu certo ou não (sei que estou), não há como me impedir, nem se você insistir. Só posso amar também.

Mateus M. Nascimento.